sábado, maio 21

¡Bienvenidos a la Edad Media!

Recebi da Ruth Adrada, de Buenos Aires, uma atualização para os nossos dias:


"En las últimas semanas beatificamos a un Papa, casamos a un príncipe, hicimos una cruzada y matamos a un moro."






PMA maio 2011









domingo, maio 15

O fim da Escola Pública é prá quando?



Manchete do Estadão de hoje no Caderno Vida:


"Emergentes, famílias das Classes D e E investem em escola particular".


Lembro-me dos tempos em que a Escola Pública era o padrão de ensino. 


Iam para escolas particulares duas classes de alunos: os mais ricos, talvez religiosos, que pagavam caro em escolas privadas de elite (São Luiz, Arquidiocesano, Bandeirantes, Rio Branco e poucos outros); ou os atrasadões, sem muita vocação para aprender, que iam para escolinhas particulares, geralmente oferecendo cursos fáceis e inúteis, mercadores de diploma, sem muito controle de presença em classe. 


Mais ou menos como grande parte das escolas e faculdades de hoje, isso não mudou.
O que mudou foi a destruição sistemática da escola pública e a desmoralização do ensino e dos seus professores. 


Desleixo? Demagogia dos nossos governantes? Será que tal catástrofe pode ter sido apenas casual, assim como se ninguém estivesse interessado em que acontecesse e ela apenas... aconteceu?


Estamos quase chegando lá: nesse passo, daqui a uma ou duas gerações não haverá mais ensino público. Mas haverá bolsas-escola para garantir diploma a todos os cidadãos - os quais, agradecidos, irão reverenciar ainda mais o líder populista de plantão por mais uma dádiva. 


E nós, os mais idosos, talvez tenhamos ainda lembrança de que a escola pública, em todos os níveis, a começar pelo grupo escolar, era o padrão de excelência no ensino e que só ia para a escolinha de bairro quem não conseguia vaga no grupo escolar.


Hoje, em termos de ensino público, ainda sobrou algum reduto no ensino público de qualidade: USP, talvez Federal e quem sabe algumas outras, assim em Natal, em Florianópolis, não sei... 


Mas também aí a esculhambação começou. Falta de disciplina, greves, falta de professores, professores mal remunerados e desprestigiados, falta de equipamento e manutenção em vários departamentos, despreparo da academia para atender à demanda do mercado de trabalho sem sacrificar a formação geral dos alunos, e por aí vai - devagar, devagar, mas sempre.


Talvez, com um pouco mais de capricho no desleixo, daqui a alguns anos a gente consiga ter só escolas e faculdades de fundo de quintal, agenciando a emissão de diplomas e certificados. Quem precisa de professores? 


Iniciativa privada até na escola pública. Como, como? 


Xaprálá, o mercado resolve tudo.




PMA 15/5/11



Tá bom, o Obama não é nenhuma Madre Teresa, mas...

Quando começa a tomar corpo a campanha para as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em plena crise (você esqueceu? pensou que tinha passado?), é bom lembrar uma postagem anterior deste blog:


"Eu ferrei com todos vocês, mas obrigado por culparem o negão."


Ele pode matar o Bin Laden, mas o que conta "é a economia, estúpido!".


O problema é que lá, como cá, mais de dois anos é tempo demais para os neurônios do cidadão médio sustentarem, ao mesmo, memória e senso crítico. Tico e Teco. Os dois neurônios.




PMA 15/05/11



sábado, maio 14

Quem é contra negros, et allii

Ouçam este link e depois me digam. Quem não é negro nestas terras das Américas e da África? E, depois, de ouvir, quem não terá orgulho de sê-lo?

http://www.youtube.com/watch?v=ZJg5Op5W7yw&feature=player_detailpage

Quero só postar uma mensamem: viva a diferença. Existem os brancos, negros, mulatos, cafusos, caipiras, indios, japoneses (que são diferentes entre si e dos coreanos e chineses).e mais os mulatos e mestiços, a gente vê na cor da pele. E daí?

Tenho vergonha dos anos de escravidão. Vergonha pessoal por parecer branco.

Não tenho nada contra discriminar, mas tenho contra atribuir valores a qualquer discriminação. Branco é branco (nunca se sabe ao certo no Brasil e em Portugal, mas vá lá). preto é preto, mulato é mulado, e por aí vai.

Repito: e daí que existem essas diferenças?

Para quem não aprecia blues, teclem ou acessem http://www.youtube.com/watch?v=7nZgj-36ksk&feature=player_detailpage

Depois me digam. Afetos a todos.

Pergentino


PMA/14/05;11

segunda-feira, maio 9

O Curso de Futuros e Cenários da Faculdade Escola de Sociologia e Política foi transferido para o segundo semestre


Curso pioneiro de Futuros e Cenários no Brasil será ministrado na FESP, pioneira no ensino de Sociologia e Política no Brasil



O primeiro curso no Brasil de que tenho notícia, a nível de extensão universitária, estará sendo dado por mim no segundo semestre deste ano na FESP. Veja ao lado o programa com as novas datas.


Calcula-se que hoje, no mundo todo, existam cerca de cem futuristas profissionais. Entretanto, também parece haver um acordo que o Futurismo é a profissão do futuro e que será, dentro de algum tempo, uma atividade altamente valorizada e prestigiada.  Hoje ela é exercida por alguns assessores especializados em grandes centros nas matrizes de grandes empresas globais. E por vários Governos, principalmente entre os militares.


Trata-se de uma atividade séria, mas incipiente, que ainda é vítima de toda sorte de distorções, mal-entendidos e até de charlatanices. 


Em geral, falar de Futurismo hoje em dia não desperta interesse, porque a disciplina usa palavras comuns, o que faz as pessoas pensarem que já conhecem tudo a respeito, antes mesmo de saberem de quê se trata.


O curso da FESP propõe uma abordagem sistemática, mais séria e aprofundada do assunto, com destaque para a metodologia de construção de Cenários e Estratégias de Longo Prazo. 


Terá uma abordagem original: além de proporcionar as bases teóricas do estudo, deverá entregar os alunos os alunos já treinados, familiarizados e preparados para adotar a metodologia de Cenários em suas empresas e a trabalhar como Facilitadores. 


A técnica de Cenários é usada em forças armadas do Brasil, dos Estados Unidos, da OTAN e de outros países. É fundamental na estruturação de estratégias de longo prazo de empresas como Royal Dutch Shell, Nestlé, Carrefour, Unilever, Nokia e muitas outras. 


Entretanto, ainda no caso dessas empresas que nos são familiares aqui no Brasil, mesmo as pessoas que nelas trabalham estão pouco preparadas para usar o material informativo a respeito que recebem das matrizes - quando recebem. 


Este curso é portanto importante na integração interna das grandes corporações operando aqui, assim como na modernização da gestão das empresas brasileiras de todos os portes.





PMA 09/05/11


sexta-feira, maio 6

Finalmente o Governo joga a toalha





Depois de espernear na mídia e de algumas tentativas frustradas no mercado de câmbio, finalmente o Governo brasileiro jogou a toalha. Manchete do Estadão (5 de maio de 2001, capa do Caderno de Economia e Negócios):

"Governo desiste de mudança radical no câmbio e usa real forte contra a inflação"



Nada mais restava ao Governo, é claro. Comprar dólares para manter a cotação do real (ou mesmo melhorá-la, em benefício de nossa indústria) não dá mesmo. Não sou economista, mas sempre soube disso.


Vejam, nos Estados Unidos e nos países de cotação AAA ou parecida os juros estão a praticamente zero, um, dois, por cento ao ano.  


Aqui nós falamos em números parecidos de juros ao mês. E de números de dois a três  algarismos ao ano. Nada melhor e mais garantido do que tomar empréstimos nos Estados Unidos e aplicar no Brasil. E o Brasil, com sua política econômica liberal, depende dessa especulação para fechar as contas e pagar os juros de uma dívida pública que só tende a crescer.


Sem medidasmenos ortodoxas e atuação do Governo no mercado de capitais, sobra apenas a taxa de juros para tentar equilibrar os preços. E o resultado é perverso: quanto maior a taxa de juros, maior a liquidez que o País atrai e maior o perigo de um inflação descontrolada.


A inflação já está aí faz tempo. Desde o Plano Real, quando falamos em inflação controlada, é porque estamos achando desprezível uma inflação de mais de 3%, 4% ou mesmo, historicamente, 6 ou 7% ao ano. Incidentalmente, os economistas de plantão no mundo todo estão alertando para o "pânico" das autoridades chinesas com o crescimento chinês, que está trazendo uma inflação absurda e imprevista. De 3% ao ano. Quá, quá, quá...


Na matéria do Estadão, revela-se que "[a] estratégia é aproveitar a cotação do dólar baixo para importar produtos que complementam o consumo interno com preços mais baixo (sic) aos consumidores". E mais adiante, cita-se o Ministro Fernando Pimentel do Desenvolvimento: "É preciso conviver com o câmbio".


Em outras palavras, a indústria nacional que se dane - pois, como declarou "um aliado" de Dilma, "Nem pensar na hipótese de uma aceleração da inflação... Isso significaria perder todo o nosso cacife político".


Com a política ortodoxa em curso desde o Plano Real e o desmonte iniciado no Governo Collor, vamos cada vez mais ser uma economia dependente. Talvez uma colônia cheia de gadgets e exportadores de commodities e aparelhos aqui montados por grandes multinacionais. 


Se conseguirmos a vitória do etanol, sonho brasileiro de adoção mundial desse combustível, a ser produzido no Brasil, vamos nos tornar um imenso Nordeste, no pior sentido histórico: plantadores de cana de açúcar, talvez até ricos per capita. 


Você sabia que, no Século XVII, no auge do monopólio brasileiro do açúcar, os brasileiros eram as pessoas mais ricas do mundo?


É claro que, entre os brasileiros, não se contavam escravos (africanos e crioulos, i.e., negros criados aqui mesmo), que eram apenas ativos possuídos pelos brasileiros. Vejam no que deu...


Seguindo essa direção, seremos cada vez mais uma nação dependente. 


Não foi esse o caminho que levou os Estados Unidos a ser o que são. Nem o Reino Unido, nem todos os demais países capitalistas desenvolvidos. Nem a China, nem a Coréia.


Logo mais estaremos comentando o que significa realmente a globalização. Ou a "globoseira" ("globalloney"), tal como denominada em matéria de The Economist.






maio 2011



quarta-feira, abril 13

Crises econômicas do capitalismo



Esta link levará você a uma maravilha da canção americana, por Al Johnson. Grande cantor, grande intérprete, voz característica e inconfundível. Esta música retrata bem os tempos da crise de 29-30-40. 


Ele (o cantor) se orgulha de ter trabalhado para construir os maiores ícones do progresso urbano ("este prédio", "esta ponte"), que "agora estão feitas; mano, pode me dar dez centavos?". 


E aí vem a solução: ele é convocado para a Guerra.


Veja em http://youtu.be/4F4yT0KAMyo 


E aí nós, ocidentais e cristãos, agora estamos intervindo na Líbia. As coisas não acontecem como planejado na mídia. Fazem-me lembrar de como começou a Guerra da Coréia, o incidente do Golfo de Tonkin, a Guerra do Vietnã, a primeira invasão do Iraque (justificável para proteger o Kowait?), a Segunda Guerra do Iraque, a Guerra no Afganistão. E agora as coisas se abrem para toda a região árabe do Norte da África, a região do petróleo.


Quantas vidas e ideais deverão ser sacrificados para a Grande Potência (ou "As Grandes Potências") perderem guerras sucessivas só para demonstrar sua força e capacidade de destruição? Será que eu sou paranóico ou será que "eles" nunca aprendem?


Não vou explicar mais, ainda que sob o risco de ser mal interpretado - mas não redundante. 


Se quiserem mais detalhes, consultem o Luiz Eça em


http://www.politicinter.blogspot.com/


Desejo boa sorte a todos nós.




pma 13/04/11

terça-feira, abril 12

As perdas do politicamente correto



Uma das minhas cantoras favoritas era, ou é, Ertha Kitt. Uma canção tão fascinante e bem humorada como a do link a seguir hoje talvez não fosse um sucesso. E talvez a ranzinzice moderna não daria muita atenção a essa diva espetacular da música popular americana. Veja em
http://youtu.be/Jgu-dz8jLOs

Curta essa!





terça-feira, março 22

Novo curso da FESP: Futuros e Cenários



Aprendendo e ensaiando com os futuros: como enfrentar o imprevisível

De 7 de maio próximo a 2 de julho, todos os sábados à tarde, estarei ministrando um curso de extensão universitária na FESP (Faculdade Escola de Sociologia e Política de São Paulo), a tradicional e mais antiga instituição de ensino de política e ciências sociais.



O curso examinará as metodologias de previsões, análise de tendências e "futuring", com ênfase na metodologia da construção de cenários de futuros alternativos para elaboração de estratégias robustas de longo prazo e monitoramento de tendências.


 Ao que me consta (salvo melhor informação), é um curso pioneiro no Brasil. Existem seminários e conferências eventuais a respeito, mas não um curso metodicamente estruturado como este. 


A metodologia de Cenários é adotada em quase todas as sedes das grandes corporações mundiais e por órgãos governamentais de muitos países. Ironicamente, o curso pioneiro na América Latina me parece ter sido na Venezuela, já tendo começado ainda em 2011.


O curso terá a duração de dois meses e um sábado (total de 9 tardes, 32 horas), das 13:00 às 17:00 hs.  Uma atração adicional é o fato de ele incorporar aulas expositivas com workshops e trabalhos em grupo. 


Não se trata apenas de uma inovação em métodos de ensino: o curso pretende demonstrar a metodologia de Cenários pela prática em aula, de modo a que os alunos, ao seu fim, tenham conhecimento e experiência suficientes para adotar a prática de Futuring e Cenários imediatamente em suas empresas.


Veja ao lado o conteúdo detalhado das aulas, dia a dia. Ou acesse o site da FESP, onde poderá comunicar-se com a Secretaria e, se desejar, fazer sua inscrição.


http://twixar.com/FtuVl2af4




PMA, mar/2011

Pesquisas e opinião pública


dO BLOG IDEIA CERTA, DE ANDRÉ GRUIMARÃES (lONDRINA), RECEBI O SEGUINTE (abrir aspas):

SÁBADO, 19 DE MARÇO DE 2011
Estados Unidos criam programa para manipular com perfis falsos o que é dito em redes sociais

RIO - Os que acreditam em teorias da conspiração ganharam mais um incentivo à crença nesta sexta-feira. Reportagem do jornal britânico "The Guardian" revelou que as Forças Armadas americanas estão desenvolvendo um software para manipular redes sociais como Twitter e Facebook por meio de perfis falsos. O objetivo é influenciar no que é dito nesses sites, disseminando propaganda pró-EUA e combatendo discursos "extremistas" e contrários ao país.

Contratada por US$ 2,76 milhões pela United States Central Command (Centcom), órgão que supervisiona operações militares dos EUA no Oriente Médio e na Ásia Central, a empresa californiana Ntrepid está criando o programa, que permitirá que cada agente americano controle dez perfis na rede.

O contrato exige do software que os perfis tenham origem em servidores baseados em vários lugares do mundo e possuam uma "história convincente" (ou seja, detalhes que passem a impressão de se tratar de uma pessoa real). A Centcom também pediu que o sistema permita que mais de 50 agentes sejam capazes de controlar as contas desde suas estações de trabalho nos EUA, "sem o medo de serem descobertos por adversários sofisticados".

O governo americano designará um local - provavelmente na toda-poderosa base aérea MacDill, na Flórida - onde os agentes trabalharão exclusivamente nas redes sociais. Acredita-se que o contrato esteja dentro da Operação Earnest Voice (OEV), um colosso de estimados US$ 200 milhões criado originalmente para combater a presença on-line de apoiadores da al-Qaeda na guerra do Iraque e que estendeu sua atuação para o restante do Oriente Médio.

Por considerar ilegal direcionar o uso da tecnologia contra audiências americanas, a Centcom decidiu que toda ação será feita em línguas estrangeiras, entre elas árabe, farsi, urdo e pachto.

- A tecnologia suporta atividades blogueiras secretas de sites em línguas estrangeiras de modo a permitir que a Centcom combata extremistas violentos e propaganda inimiga fora dos Estados Unidos - afirmou o comandante Bill Speaks, porta-voz da Centcom.

O analista especializado em novas tecnologias Jeff Jarvis afirmou ao "Guardian" que o projeto é contrário à liberdade de expressão na internet e que seu único objetivo é controlar a sociedade.

Fonte: o Globo

FECHAR ASPAS.

Agora minha observação: 1984 chegou e, como se esperava, ninguém viu quando nem percebeu. Só que não é necessária a opressão de um Big Brother. As pesquisas formais de opinião estão sendo substituídas por mecanismos de busca nas redes sociais, twits, etc. E as redes sociais estão sendo usadas pelos “clientes” da pesquisa. Numa fusão entre pesquisa, publicidade e promoção através da Net, estamos chegando a um Admirável Mundo Novo via 1984.


PS bem discreto: “1984” é um romance George Orwell. “Admirável Mundo Novo” é um romance de Aldous Huxley.



PMA mar/2011


domingo, fevereiro 20

Brasileiros têm mais dinheiro na Suíça...


Recordações dos tempos em que o Governo controlava a livre circulação de moedas


A manchete de O Estado de São Paulo, de hoje, dia 20 de fevereiro de 2011, pg B1, diz que 

“Brasileiros têm mais dinheiro na Suíça do que chineses, indianos ou árabes”.

Isso me trouxe recordações de uma ocasião em que eu, National Manager da LPM-Burke e representante da Burke International no Brasil, estava em nova York para uma reunião internacional da companhia.

Na época da ditadura, lá nos idos 80, houvera vária crises que mudaram os rumos mundo. O petróleo valorizou-se e alguns príncipes árabes esbanjavam tanto dinheiro que a imprensa noticiou  o caso daquele magnata árabe que, no aeroporto de Londres, ao descer de uma limusine de luxo,  comprada apenas para o fim de semana, deixou o carro como gorjeta para o motorista.

Aproveitando minha estada em Nova York, um representante de um banco americano pediu um encontro comigo. Ele queria promover uma pesquisa junto a clientes brasileiros que mantêm (ou mantinham) contas pessoais em Nova York, com aplicações financeiras acima de um piso mínimo  de um milhão de dólares. Pedia uma amostra relativamente grande, algo como 100 entrevistas. O objetivo dele era saber como montar um produto financeiro que atendesse especificamente a esse público.

Ponderei que isso seria um projeto inviável. Onde iríamos achar tanta gente com conta corrente e aplicações financeiras fora do País, em plena crise, retração econômica no Brasil, economia fechada, governo severamente ditatorial que coibia até a posse de moeda estrangeira, se não mediante autorização prévia do Banco Central, obtida apenas em casos excepcionais através de complicados processos?

Primeiro ele estranhou a minha reserva, depois sorriu com ar superior e revelou-me que as aplicações de brasileiros nos bancos de Nova York rivalizavam com as dos árabes. Isso qualquer banqueiro americano sabia, pois era um fato retratado nas estatísticas oficiais dos bancos americanos. Na verdade, assegurou-me ele, brasileiros eram o segundo maior grupo de investidores  da carteira de clientes estrangeiros do seu banco - uma instituição com presença significativa no mundo todo.

Coisa inteiramente natural e legal.  Nos Estados Unidos. Ou na Suíça. Mas não no Brasil da época. 

O projeto acabou não acontecendo. 

E hoje?

Se você acha que os sultões árabes são ricos além da nossa imaginação, é que você não conhece rico sul-americano. Ou brasileiro.



PMA, fev 2011


terça-feira, janeiro 25

Desigualdade


Uma situação crítica nos Estados Unidos é uma ameaça para todo o mundo – inclusive o Brasil


Um artigo de Christia Freeland na revista Atlantic (Jan/Feb 2011, pg 44) começa assim:

Se aconteceu de você estar assistindo à NBC no primeiro domingo de Agosto, no período da manhã, no verão passado, você teria visto uma coisa curiosa.

Ali, no cenário de Meet the Press, o âncora, David Gregory, estava entrevistando um convidado que expunha com vigor a tese de que a Economia norte-americana tornou-se “muito distorcida”.

Após a recessão, esse entrevistado explicou, as pessoas que possuem os maiores rendimentos, os grandes bancos e as corporações gigantescas tiveram “uma recuperação significativa”; o resto da Economia, ao contrário – inclusive os pequenos negócios e “uma parcela importante da força de trabalho” – foi atingida [pela crise] e ainda está lutando [para recuperar-se].

O que vemos hoje, argumentou ele, não é uma Economia, mas “fundamentalmente dois tipos separados de Economias”, cada vez mais distintas e divergentes.
...
O que torna essa argumentação mais chocante neste caso é que ela estava sendo apresentada por ninguém menos do que aquele que foi, durante cinco mandatos consecutivos, o Presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan: ícone do liberalismo, defensor preeminente do mercado livre...

Quando o próprio sumo sacerdote do capitalismo declara que o crescimento da desigualdade econômica constitui uma crise nacional, é sinal de que alguma coisa vai muito, muito mal.


A desigualdade social nos Estados Unidos sempre foi grande e cresce ainda mais. Mas, pelo que me dizem, o Brasil continua ganhando nesse item. Isto é, é um dos países mais desiguais do mundo.

Seria isso uma crise, no nosso caso?

Ou é apenas a vida como sempre foi?

Aqui tudo continua sossegado. Vai ver o Brasil é diferente. Ou então o Greenspan não entende nem de Economia nem de Capitalismo.



PMA jan 2011


domingo, dezembro 26

A propósito da globalização na Pesquisa de Mercado e na Propaganda

Veja o que aconteceu com os mineiros da França (Séculos XVIII a XX)


Praticamente hoje não existem mais mineiros na França. Antigamente, eles eram a fina flor do operariado. Vou traduzir um trecho de um ensaio interessante da revista "L'Histoire", intitulado "Il étatit Une Fois la MINE" (L'Histoire, n.o 359, pg 30):


"O mineiro dos primeiros tempos não é o homem alquebrado de Germinal [como retratado no romance de Émila Zola]: ganha o dobro de um operário diarista e trabalha lado a lado com seus superiores, numa relação de proximidade e respeito mútuos. As coisas se deterioram no começo do Século XIX, com a apropriação das companhias mineradoras pelos financistas de Paris. 


"Esses homens, muito distantes do mundo da mina, só pensam em produtividade e lucro. Nas galerias, substituem os carrinhos de mão, com os quais o carvão era transportado, por vagões que circulam em trilhos, maiores e mais rápidos. Em contrapartida, inúmeros empregos desaparecem. Os operários que ficaram veem sua diária ser reduzida em 12%."


PMA dez/2010

Mestre Dogen: pérolas do Zen


"Entenda que, nesta vida, você só tem uma vida, não duas ou três." (Dogen Zenji)


PMA 26/12/2010

segunda-feira, dezembro 20

Elogio à cafonice oficial

Prá não dizerem que sou do contra, aqui vai um elogio à reforma do Parque da Água Branca


Eu continuo frequentando o Parque da Água Branca. Está ficando uma beleza. Onde antes havia mato fechado, resto da Mata Atlântica - essa coisa selvagem de antigamente - fizeram um canteiro lindo, com pistinha de Cooper de pedregulhos. Encantador! 


É bem verdade que essa pistinha no meio do canteiro é desnecessária, já que o Parque todo era uma pista de caminhada e de corrida bem maior. Era. Será que vai deixar de ser?


Não dá para saber, que estão destruindo, isto é, refazendo tudo. Tudo o que era mal conservado agora está envernizado e enfeitado de placas comemorando a inauguração pelo Governador, o Vice, o Secretário e a Primeira Dama.


No espaço de leitura, que já existia, botaram um guarda sol em uma mesinha, e mais um banco e outra mesinha nova, e um enorme cartaz anunciando "Espaço de Leitura". Do lado, mais uma placa de bronze comemorando o feito heróico dos nossos eminentes dirigentes e delicadas demas, inaugurando a placa ao lado.


Hoje, de qualquer recanto do Parque, a gente vê os prédios em volta, o movimento dos carros da Av. Matarazzo ou na Rua Ministro Godoy, tudo como se estivessem dentro do Parque. Uma total integração paisagística. Os bosques e touceiras estão sendo substituídos por canteiros parecidos com os das portarias dos prédios de alto padrão que circundam o Parque. Assim fica tudo harmonizado, moderno, um encanto! - tudo de alto luxo.


Sugiro que a obra se complete pelo asfaltamento da arena central; e ainda que a Rua Dr. Cândido Espinheira rasgue o Parque em dois, para dar vazão ao tráfego cada vez mais congestionado ao seu redor, fruto da especulação imobiliária. Progresso, é isso mesmo! E a Secretaria da Agricultura poderia vender ou arrendar lojinhas ao longo dessa artéria, expulsando de vez as galinhas a pavões que sujam as alamedas. Se possível, também os pombos e maritacas.


Se, além disso, a gente botar abaixo aquela velharia do pergolado e fizer uma arcada supermoderna, o espaço pode ser arrendado para o McDonald's, com grande vantagem para os cofres públicos e seus guardiões. O McDonald's ficaraia incumbido da manuitenção do gramado em volta, sem despesas para a Secretaria da Agricultura. Tipo PPP ou algo assim.


(a) uma entidade que assombrou PMA em 20/12/2010

Estado vs Mercado? Veja artigo do Prof. Bresser-Pereira

Por quem é mais racional
Luiz Carlos Bresser-Pereira
Folha de S.Paulo, 19.12.10
A crise demonstra que os governos dos Estados são mais racionais que agentes privados e suas empresas
DURANTE OS 30 anos neoliberais aprendíamos que o Estado era a fonte de todos os males; que o setor privado estava sempre equilibrado porque era coordenado pelo mercado, enquanto que o Estado -regido pela política- era objeto do populismo econômico e se constituía em um obstáculo maior ao crescimento com estabilidade.
Além de antidemocrática, a tese era falsa, porque as crises financeiras demonstraram através dos tempos que o mercado jamais foi capaz de controlar o comportamento especulativo dos agentes privados.
E era meia verdade em relação ao Estado, porque há políticos populistas, mas a maioria é responsável fiscalmente, porque sabe que dessa responsabilidade depende sua sobrevivência.
O que não estava claro era que os grandes deficit financeiros do Estado eram devidos ao setor privado, não ao populismo dos políticos.
Quando estoura uma crise bancária, o Estado, primeiro, age como um emprestador de última instância para socorrer os bancos, e, em seguida, aumenta os seus gastos para restabelecer a demanda agregada e evitar o colapso do sistema econômico.
Em consequência desses dois fatos, incorre em grande deficit público, e a dívida pública se torna muito elevada não obstante não tenha havido irresponsabilidade fiscal.
Este fato tornou-se patente em relação aos grandes países ricos na crise financeira global de 2008.
Na maioria dos casos os governos estavam com suas contas equilibradas; a irresponsabilidade foi privada e se expressou em bolhas de ativos: de imóveis, de commodities, e do mercado acionário.
Quando a crise arrebentou, apenas o Estado tinha condições de socorrer o setor privado. Foi o que fez; em consequência, seu deficit público e sua dívida pública explodiram.
Estes fatos podem ser observados de maneira clara em um país pequeno como a Irlanda, que, agora, está na crista da crise financeira de 2008, hoje transformada em quase-estagnação dos países ricos.
O governo estava com seu deficit público sob controle, de forma que, entre 2004 e 2007, a dívida pública diminuiu de 30% para 25% do PIB. Entretanto, quando rompeu a crise e os bancos quebraram, o deficit público explodiu e, neste ano, se forem considerados os aportes aos bancos, o deficit público será de 32% do PIB! Em consequência, a dívida pública já no ano da crise subiu para 44%, em 2009 foi para 65%, e neste ano deverá alcançar 99% do PIB!
O caso é exemplar. E a crise como um todo mostra uma coisa mais geral: os governos dos Estados são mais racionais do que os agentes privados e suas empresas. Sim, mais racionais.
O político toma decisões com razoável conhecimento das consequências de seus atos, enquanto que os agentes privados fazem profecias autorrealizadas ao preverem o aumento dos preços dos ativos e os comprarem.
Entram, assim, em um ciclo irracional de manias, euforias e crises. Em outras palavras, as bolhas de ativos surgem, crescem e explodem porque compras de ativos promoveram a valorização prevista.
Não estou sugerindo que o mercado seja uma instituição de coordenação econômica que possamos dispensar. É insubstituível. Mas desde que permanentemente regulado e rerregulado por quem é mais racional: o Estado.



Luiz Carlos Bresser-Pereira
Professor Emérito da Fundação Getúlio Vargas
Globalization and Competition (Cambridge UP)
Globalização e Competição (Campus/Elsevier)
Mondialisation et Competion (La Découverte)
 

sábado, dezembro 11

Porque a Marta é a melhor do mundo - há 4 para 5 anos

Eu não faço tudo o que amo, mas amo tudo o que faço

Olhem a foto da Marta e reparem na expressão dela olhando a bola. Quem ama assim a bola, só tem ser campeã. Ela tem o segredo.


Eu amo quem se ama e ama o que faz. Sou fã dela, mais do que de futebol (masculino ou feminino).

PMA 11/12/10

sábado, dezembro 4

Cuidado com as verdades incontestes!

Nem sempre a verdade está certa: às vezes a sabedoria convencional e o senso comum enganam

Hoje em dia parece não haver afirmação mais pejorativa do que dizer que Fulana é “uma Amélia”. Principalmente se você diz isso diante de mulheres e, em particular, de mulheres modernas e independentes.
Todos sabem de onde vem a expressão. O samba “Amélia” de Ataulfo Alves é um eterno sucesso e, digo de passagem, um de meus preferidos (aliás, o Ataulfo para mim é cult). Até hoje quase todos sabem cantar “Amélia” de cor.
Mas parece que ninguém prestou atenção no sentido da letra. Debalde Ataulfo, quando vivo, deu entrevistas em que afirmou que Amélia, “a mulher de verdade”, não é a mulher submissa e passiva, mas o modelo da mulher solidária. Diria eu, da mulher companheira e forte, que pode conviver com o parceiro de igual para igual.
Eu assisti a uma entrevista dele na TV em que a entrevistadora não conteve uma expressão sarcástica, quando ele disse isso. É claro que a entrevistadora era uma profissional moderna e independente.

A letra é assim:
Nunca vi fazer tanta exigência,
Nem fazer o que você me faz.
Você não tem a menor consciência,
Não vê que eu sou um pobre rapaz...
Você só pensa em luxo e riqueza.
Tudo o que você vê você quer!
Ai, meu Deus! que saudade da Amélia!
Aquilo, sim, é que era mulher!
Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter que comer.
E, quando me via contrariado,
Dizia: “Meu bem, que se há de fazer?”
Amélia não tinha a menor vaidade,
Amélia é que era a mulher de verdade!

Existem três personagens nessa história: Eu (supostamente, o Ataulfo), Você (a atual companheira do Eu) e a Amélia (a antiga companheira do  Eu).
Na primeira estrofe, o Eu se queixa de que Você não compreende que ele é pobre e não pode atender a todas as exigências de Você. Você vive pedindo coisas que ele não tem dinheiro para comprar.
Na segunda estrofe aprendemos que Você é uma mulher mimada, que espera receber do companheiro uma vida fácil de luxo e riqueza. Provavelmente Você fica em casa ranzinzando com ele em vez de ir trabalhar a ajudar no sustento do casal, já que ele não passa de um pobre rapaz. 

Eu tenho a imagem de Você como uma mulherzinha imatura, dependente e chata, própria para ser teúda e manteúda por algum homem mais rico.
Então ele compara Você com a Amélia. Não sabemos se a Amélia ajudava no sustento da casa, se lavava roupa para fora, ou mesmo trabalhava fora do lar, mas sabemos que ela estava sempre ali, solidária, e que, em vez de reclamar, quando ele se deprimia por falta de dinheiro, ela o animava e apoiava. Dá-me a impressão de ser muito mais madura e independente.
Assim vistas as coisas, Amélia me parece mais próxima do que eu chamaria de mulher moderna e independente. Mas não contem isso às minhas amigas e alunas, elas são capazes de me linchar. 

A sabedoria tradicional enganou a todos e não adiantou o Ataulfo tentar explicar. Acho que nem eu.
 Ou então tomemos o caso do Gerson.
Ele nunca fala da Lei de Gerson e fica bravo se lhe perguntam a respeito. Coitado, uma vez eu vi a mulher dele dando uma entrevista em que dizia que o maior arrependimento dele na vida foi ter feito aquele comercial do cigarro Vila Rica, da RJReynolds.
O Gerson é um homem afetuoso e modesto, mais para bonacheirão do que para a Lei de Gerson. Os amigos só pararam de troçar dele quando perceberam a irritação que lhe causavam.
A coisa se passou assim.
Em meados dos anos 70 do século passado, a RJR decidiu lançar o cigarro Vila Rica. A proposição de consumo era a de que você podia desfrutar do sabor pleno de um bom cigarro, por um preço mais barato do que as marcas líderes de então.
A LPM realizou a pesquisa qualitativa, discussões em grupo, previamente ao desenvolvimento da campanha publicitária. O relatório final foi produzido pelo Luciano Dordal Cleto. Foi um trabalho excelente para orientar a criação.
De lá veio a idéia de resumir a proposição de consumo (mais sabor com preço menor) numa frase que o relatório inspirou: “Se posso ter todo esse sabor em Vila Rica, por quê vou pagar mais? Gosto de levar vantagem em tudo”, isto é, no preço e no sabor.
A formulação da frase assim resumida e a idéia de botar essa proposta na boca de um campeão do mundo, então muito popular, foi da equipe criativa da Caio Domingues, com o próprio Caio à testa. A pesquisa foi excelente, mas ela jamais poderia ter bons resultados sem uma equipe criativa de primeira, que fez um trabalho também excelente, pinçando, de citações textuais e da interpretação do relatório, a formulação correta da campanha.
Esse comercial de lançamento de Vila Rica foi o campeão de índices de recall entre adultos de ambos os sexos na história do Day After Recall no Brasil, apesar de ainda ter sido produzido em preto e branco.
Os resultados de venda foram expressivos e corresponderam ao sucesso publicitário.
E daí alguém inventou a famosa “Lei de Gérson”, coitado, que não tinha a ver com isso, e que se resume na frase: gosto de levar vantagem em tudo. Lema do pessoal lá de Brasília e de outras bandas também, mas não do Gerson.

quarta-feira, novembro 3

A “Facilitação Quantitativa” de Obama

Se você leu o artigo abaixo do Prof. Bresser-Pereira, você já sabe do que se trata e quais os prós e contras da dita cuja.
Nos últimos anos, o período Lula foi abençoado (?) por uma enxurrada de liquidez que causou a recente crise mundial. Era de se esperar: não dá para enriquecer dinheiro indefinidamente sem produzir, só trocando papéis.
Donde, a invasão de dólares que está desnacionalizando a nossa economia e financiando os negócios bancários, as prestações a perder de vista, etc.
O preço imediato disso são os juros altos, mas quem se importa, desde que caiba no salário, quer dizer, no balanço de pagamentos antes de se computarem as despesas normais do Governo – o chamado superávit primário? A prioridade, isso está claro, é o interesse dos bancos, e os demais interesses do País vêm depois, com o que sobra.
O “Quantitative Easing” de Obama pode dar certo, Deus queira. E que nós possamos, como sempre, receber umas lascas das sobras.
Mas você sabe o que quer dizer isso? Facilitação Quantitativa quer dizer que o Governo Americano vai imprimir dólares em vez de simplesmente colocar no mercado títulos da dívida pública. Quando o Juscelino fez isso para construir Brasília, a UDN propôs “impeachment” ou deposição, isto é, um golpe de estado. Deu Jacareacanga, que não deu em nada, mas podia ter dado.
Mas, se o Governo Americano inundar o mercado de dólares, a inflação mundial vai aumentar, a guerra cambal vai ser impossível de evitar, as reservas brasileiras, de que tanto nos orgulhamos, não vão valer grande coisa. Vai haver mais dólares sobrando, vai aumentar o fluxo de capital especulativo para o Brasil, o Real vai ser mais valorizado – a não ser que haja uma mudança importante na condução de nossa política econômica.
Será possível isolar o Brasil desses perigos?
Uma herança maldita para a Dilma. E não adianta culpar o Lula.

terça-feira, outubro 26

"Facilitação quantitativa" por L.C. Bresser-Pereira

(Folha de S.Paulo, 24.10.10)
Inundar o mercado de liquidez, como tem feito o governo americano, ajuda a diminuir a dívida pública.
Os países ricos estão enfrentando sérias dificuldades depois do crash financeiro que afetou a economia de todo o mundo em 2008.De fato, eles vivem uma recessão de longo prazo, na qual altas taxas de desemprego e baixas taxas de crescimento prevalecem, e o risco de deflação é alto.
Por outro lado, sentem-se com suas mãos atadas, pois adotaram uma política fiscal altamente expansiva em seguida à crise -o que resultou em taxas elevadíssimas de endividamento público.
Por isso, diversos grandes países europeus, como a Alemanha e o Reino Unido, estão envolvidos voluntariamente em um violento processo de ajuste fiscal. Os EUA hesitam. Ao decidirem por essa via, esses países apenas aprofundarão a recessão em que se encontram.
Existe, entretanto, uma saída. 
É o "quantitative easing" que o Federal Reserve Bank já adotou no auge da crise, e que agora seu presidente, Ben Bernanke, se dispõe novamente a adotar.
Mas só será realmente uma solução se os dirigentes econômicos desses países levarem às últimas consequências essa política. O "quantitative easing" -a facilitação quantitativa- é um eufemismo fascinante para a velha e condenada impressão de moeda pelos governos.
O objetivo declarado é aumentar a liquidez do sistema econômico. O método é o Fed comprar no mercado títulos do Tesouro americano.
Com esta estratégia, o mercado é inundado de liquidez, e, graças a isso, a economia talvez reaja, na medida em que investidores e consumidores se animem e os bancos logrem financiar investimentos e consumo ao invés de serem obrigados a esterilizar os recursos em seus cofres.
Existe, entretanto, uma possibilidade ou um objetivo que ninguém gosta de discutir, mas que é muito importante. Se o Banco Central compra títulos do Tesouro no Banco Central, a dívida pública diminui. Esta compra equivale ao pagamento de parte da dívida. Da dívida líquida: a dívida do Tesouro menos o valor dos seus títulos comprados pelo Banco Central.
Em compensação, poder-se-á argumentar, a dívida do Banco Central aumenta. Mas que dívida? Só se considerarmos dívida a quantidade de moeda em poder do público.
Na verdade, o "quantitative easing" tem e deve ter um segundo objetivo: diminuir a dívida pública e, assim, abrir espaço para que os governos possam voltar a fazer política fiscal expansiva e superar definitivamente a crise.
Mas isto não causa inflação? O Fed não está preocupado. O perigo, hoje, não é de inflação mas de deflação.
Os preços de muitos setores econômicos estão caindo nos EUA -o que é muito preocupante. O que não está clara ainda é a redução da dívida pública.
Mas esta não é uma heterodoxia inaceitável para pessoas bem-pensantes? Pode ser, mas não há populismo envolvido no processo.
Não foi graças aos bem-pensantes que o mundo até hoje progrediu, e sim graças àqueles que tiveram a coragem e a firmeza de enfrentar problemas novos e grandes com determinação.
O bom-senso nos diz que devemos manter nossas contas em ordem. Mas a verdadeira ordem nos momentos de crise é tão simples quanto os bem-pensantes creem

Luiz Carlos Bresser-Pereira
Professor Emérito da Fundação Getúlio Vargas
Globalization and Competition (Cambridge UP)
Globalização e Competição (Campus/Elsevier)
Mondialisation et Competion (La Découverte)
www.bresserpereira.org.br